
Bancos renegociam bilhões com Desenrola, mas provisões sobem 23% no 2T26
Compartilhar Imagem: Agência Brasil O Governo Federal relançou o Desenrola neste ano prometendo tirar milhões de brasileiros do vermelho, e o programa já renegociou R$ 25,5 bilhões em dívidas atrasada
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Compartilhar Imagem: Agência Brasil O Governo Federal relançou o Desenrola neste ano prometendo tirar milhões de brasileiros do vermelho, e o programa já renegociou R$ 25,5 bilhões em dívidas atrasadas, valor acima da estimativa inicial de R$ 20 bilhões. É dinheiro de verdade voltando para o caixa dos bancos, que aceitaram conceder descontos generosos para reaver créditos que já pareciam perdidos.
Só que os balanços do segundo trimestre deste ano (2T26), divulgados nas últimas semanas por Nubank, Bradesco, Itaú, Santander e Banco do Brasil, contam uma história um pouco mais complicada. Enquanto o programa ajuda famílias a limpar o nome, as provisões dos maiores bancos listados na B3 subiram 23% no período, segundo levantamento do Broadcast. Ou seja, o alívio existe, mas ele convive com um custo de crédito que continua a subir.
O Desenrola oferece descontos de até 90% para quem tem dívidas em atraso entre 91 dias e dois anos, contraídas até janeiro deste ano por meio de cartão de crédito, cheque especial ou crédito pessoal. Para incentivar os bancos a topar o corte, o governo criou o Fundo de Garantia de Operações (FGO), um fundo público que cobre parte do prejuízo caso o cliente renegociado deixe de pagar de novo.
Com essa rede de proteção, seis instituições passaram a concentrar a maior parte das operações. O Nubank aparece isolado na liderança, com participação que chegou a quase 40% do volume total, podendo alcançar até 46% conforme leituras mais recentes do mercado. Até meados de agosto, o banco tinha repactuado R$ 1,56 bilhão em mais de um milhão de operações.
Na sequência vem o Bradesco, com R$ 662,7 milhões renegociados a prazo em 329,5 mil operações. Depois aparecem PicPay, Itaú, Santander e Banco do Brasil, com fatias que variam entre 7% e 20% do total, a depender da data de corte usada nos levantamentos. O PicPay chama a atenção pela evolução, já que saltou de participação praticamente zero na edição anterior do programa para cerca de 8% agora. Caixa, Inter e Banco Pan também aderiram, embora com fatias menores.
Depois dos descontos aplicados pelos bancos, que somaram em média 80% sobre o valor original, o saldo efetivo das dívidas renegociadas caiu de R$ 25,5 bilhões para cerca de R$ 5,09 bilhões.
Ainda assim, os números do 2T26 mostram que o programa não segurou sozinho o aumento das provisões. O Santander viu sua Provisão para Devedores Duvidosos (PDD), o valor que os bancos reservam para cobrir empréstimos que podem não ser pagos, subir para R$ 7,65 bilhões, alta de 20,6% na comparação com o trimestre anterior. No Bradesco, a PDD somou R$ 10 bilhões, avanço de 22,6% em relação ao mesmo período do ano passado, um ritmo bem próximo dos 23% apurados pelo Broadcast para o conjunto dos maiores bancos.
O Banco do Brasil surpreendeu o mercado com lucro de R$ 3,9 bilhões, acima do esperado, mas a inadimplência acima de 90 dias avançou 1,65 ponto percentual (p.p.) em um ano e chegou a 5,61%. Já o Itaú caminhou na direção oposta e virou o destaque positivo da temporada, com inadimplência de 90 dias em 1,9% e carteira de crédito crescendo 9,6% em 12 meses, sustentada por linhas como consignado privado e crédito imobiliário.
O PicPay já abriu os números do trimestre. A fintech divulgou o balanço em 24 de agosto e reportou lucro líquido de R$ 269 milhões, alta de 78% sobre o trimestre anterior e de 124% em um ano. No lucro ajustado, que exclui alguns efeitos contábeis pontuais, o resultado chega a R$ 283 milhões, avanço de 135% na comparação anual.
A companhia confirmou que o Desenrola teve participação clara nesse desempenho, já que o programa reduziu o custo de crédito em cerca de R$ 60 milhões no trimestre, valor equivalente a cerca de 20% do lucro líquido do período. Ainda assim, a inadimplência acima de 90 dias subiu para 9,8%, ante 8,9% um ano antes, sinal de que o alívio trazido pelo Desenrola convive com uma carteira que segue amadurecendo e ganhando risco.
Para Beny Fard, sócio da consultoria Segundo Minuto e especialista em geopolítica e economia, o tamanho do programa impressiona em termos absolutos, mas perde força diante do porte das carteiras dos grandes bancos. Fard lembra que essa desproporção já apareceu nas declarações do próprio setor bancário. "O presidente do Bradesco classificou o programa como imaterial para o balanço como um todo", afirma.
Beny também chama atenção para o comportamento agregado das provisões. Ele cita números concretos para sustentar o argumento.
"No segundo trimestre deste ano, a Provisão para Devedores Duvidosos agregada dos cinco maiores bancos saltou de aproximadamente R$ 40 bilhões para cerca de R$ 47 bilhões em um único trimestre. As provisões cresceram acima do ritmo das carteiras de empréstimo, elevando o custo de risco", explica.
Segundo ele, isso acontece porque o Desenrola ataca principalmente o estoque de dívidas já vencidas, sem impedir a formação de nova inadimplência. O Banco Central (BC) projeta continuidade da deterioração no terceiro trimestre, ainda que em ritmo menor.
Ao analisar banco a banco, Beny traz números que ajudam a entender esse descompasso. "No caso do Nubank, o programa respondeu por cerca de 5% do custo de crédito do trimestre, entre US$ 80 e 90 milhões, e sem esse efeito a margem ajustada ao risco cairia de 12,4% para 11,9%", diz.
Sobre o Bradesco, ele acrescenta outro dado. "Apesar de cerca de R$ 2,7 bilhões renegociados até junho, a PDD ainda cresceu 21,4% na comparação anual, para R$ 10,85 bilhões, com custo de crédito estável em 3,5%", afirma. O especialista também menciona o Banco do Brasil e o Santander.
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"A inadimplência do cartão de crédito do Banco do Brasil saltou de 7% para cerca de 15% em um único trimestre, e no Santander a PDD subiu 12% na comparação anual, com recuperação da rentabilidade esperada só para o início de 2027", completa.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, tem leitura parecida sobre a escala do programa, embora chegue lá por outro caminho.
"O volume é grande em número de contratos, mas precisa ser comparado ao tamanho das carteiras dos grandes bancos. Boa parte das renegociações envolve operações de baixo valor e clientes que já estavam bastante deteriorados do ponto de vista de crédito", afirma.
Sidney avalia que o Desenrola pode melhorar indicadores em carteiras específicas, como cartão e crédito pessoal, mas ainda não tem escala para mudar sozinho a tendência geral de qualidade dos ativos. Ele cita um dado do BC para sustentar esse ponto. "O Banco Central continua observando endividamento elevado e inadimplência em alta no sistema", diz.
Um ponto técnico ajuda a explicar por que as provisões não caem no mesmo ritmo das renegociações. "O banco substitui um crédito problemático por uma nova obrigação, mas continua avaliando a capacidade de pagamento daquele cliente. Se o risco esperado permanece elevado, a instituição precisa continuar provisionando", afirma Sidney.
Para ele, juros ainda altos e o comprometimento elevado da renda das famílias seguem encarecendo o custo de crédito, independentemente do programa. Esse é justamente o ponto que mais preocupa o mercado adiante, o chamado redefault, quando o cliente renegociado volta a atrasar o novo acordo. Beny aponta que falta um dado importante sobre esse risco.
"Ainda não há um número fechado sobre a taxa de reincidência específica do Desenrola para assegurar sua assertividade, e o tema segue como incerteza em aberto para o setor", diz.
Sidney, por outro lado, afirma que se a renda continuar apertada, parte desses clientes pode voltar a atrasar. Ma



